A alta da IA na China virou baixa na segunda-feira, 26. Uma análise da Reuters publicada no dia 26 concluiu o que os números já vinham gritando: na China, a bolha da inteligência artificial estourou. O índice STAR50, que reúne os líderes chineses de IA e semicondutores, caiu cerca de 40% em relação ao pico de julho — em menos de quatro meses — e apagou aproximadamente US$ 480 bilhões em valor de mercado. É a pior queda de um grande índice tecnológico no mundo no período.
O movimento atinge um mercado que Pequim transformou no motor da sua ambição tecnológica: fundos de poupança doméstica foram canalizados para a bolsa justamente para financiar chips, robótica e modelos de IA. Agora, o pânico substituiu a euforia, e as dúvidas começam a alcançar a capacidade das empresas chinesas de continuar captando dinheiro em novas listagens.
O Que Caiu E Quanto
O STAR50 não é o único. O CSI 300, índice amplo das grandes empresas da bolsa chinesa, recuou cerca de 20% em relação aos picos de junho, interrompendo uma alta que durava cerca de dois anos. O Índice de Ganância e Medo virou de euforia especulativa para venda em pânico. Na abertura desta terça-feira, 27, o Xangai Composite fechou a manhã em 3.650 pontos, com queda de 1,27%, e o Shenzhen Component recuou 1,6% na sessão anterior. Entre os maiores perdedores:
- Zhongji Innolight, fornecedora de óptica para data centers, cerca de 60% abaixo dos picos de junho e julho;
- Unitree, robótica humanoides, aproximadamente 50% desde a estreia em bolsa em agosto;
- CXMT, fabricante de memórias, mais de 25% abaixo em apenas um mês;
- ChangXin Storage e Mixi Integrated entre as mais atingidas pela venda generalizada.
"In China, the AI bubble has already burst" — a manchete da Reuters resume um mercado que ainda troca ações a cerca de 100 vezes os lucros, contra 250 vezes no pico e 30 vezes do Nasdaq 100.
Barato Não Ficou
Aqui está o detalhe que costuma surpreender quem lê a manchete da queda: mesmo 40% abaixo, o STAR50 negocia perto de 100 vezes os lucros do último exercício — o pico chegou a cerca de 250 vezes. Para efeito de comparação, o Nasdaq 100 está em torno de 30 vezes. Segundo o Goldman Sachs, ações de IA respondem por 42% da capitalização total da China e por 57% do volume negociado nas bolsas do continente. A queda, portanto, aliviou o múltiplo, mas não eliminou a aposta.
Pequim Responde Com Fundos Estatais
Diante do abismo, fundos estatais já estão entrando em cena para sustentar o mercado, segundo relatórios citados pela Reuters. A estratégia anterior — direcionar a poupança das famílias para a bolsa a fim de capitalizar a indústria de tecnologia — agora convive com um problema novo: empresas de IA e chips veem a janela de captação em novas ofertas fechar, justamente quando precisam de capital para competir com norte-americanos e taiwaneses.
Para o investidor internacional, a lição é simples: descontar 40% não transforma um papel a 100 vezes os lucros em achado. E para o setor, o recado é que a fase de liquidez fácil na China de IA acabou — o que pode virar vento contra justamente quando a corrida por chips, data centers e robôs humanoides entra na etapa mais cara.
Pontos-Chave
- STAR50, de líderes chineses de IA e semicondutores, caiu 40% do pico de julho em menos de quatro meses
- Cerca de US$ 480 bilhões em valor de mercado evaporaram, a pior queda entre grandes índices tech
- CSI 300, amplo, recuou 20% dos picos de junho e encerrou alta de dois anos
- Zhongji Innolight caiu ~60%, Unitree ~50% desde a estreia em agosto e CXMT >25% no mês
- Mesmo após a queda, STAR50 negocia a ~100x os lucros, contra 30x do Nasdaq 100
- Ações de IA valem 42% da capitalização da China e 57% do volume (Goldman Sachs)
- Fundos estatais entram em cena para conter a queda, com poupança das famílias em jogo
- Janela de novas listagens esfria, ameaçando a captação de empresas chinesas de tecnologia